Sobreviver a si mesmo é o grande desafio encontrado no romance A Náusea, de Jean Paul Sartre. Antoine Roquentin, personagem principal – intelectual pequeno burguês, se sente acuado frente à pressão da leveza de sua própria existência e, em conseqüência, da existência das coisas sensíveis.
Perplexo, Roquentin se descobre vivo, mas sem sentido para sua vida. “Não desejavam existir, só que não podiam evitá-lo, era isso”, conclui o personagem em certa altura do texto. Não sem antes conduzir o leitor por um verdadeiro embate intelectual sobre a natureza das coisas sensíveis e a própria natureza do ente que pensa.
A náusea, que dá título ao romance, é fruto inconsciente de uma percepção demasiado aguçada sobre o sentido da vida – o de que ela não tem sentido.
Náusea literal. Náusea que coloca personagem e, em certa medida, leitores sob uma sensação de mal estar. Sensação que perpassa toda a história. Náusea psicológica, mas, também, náusea propriamente dita, física.
“Impossível não pensar em suicídio. Eu leio citações soltas de Sartre e já coloco o pé na janela”, disse-me uma amiga ao saber que eu estava lendo um romance inteiro do filósofo francês.
Mas até mesmo a morte seria demais no conflito de A Náusea. “A carne corroída teria sido demais na terra que a recebesse, e meus ossos, finalmente, limpos, descarnados, asseados e imaculados, como dentes, também teriam sido demais: eu era demais para a eternidade”.
Perceber a existência assim, tão próxima e, ao mesmo tempo, desnecessária, incomoda. Incomoda porque desconstrói verdades originárias. O mundo existe, assim como eu, sem porquê e independente da minha vontade.
Fugir desta percepção? “Ainda que me encolha em silêncio, num canto, não me esquecerei de mim. Estarei presente”, constata Roquentin, advertindo-se do perigo de querer tentar se afastar, inutilmente, da existência que pesava sobre si.
Roquentin não tem importância coletiva. “É apenas um indivíduo”, lê-se na epígrafe do romance. E é individualmente que Roquentin ridiculariza os homens, passivos e descansados na ‘certeza’ contraditoriamente dubitável de suas próprias identidades.
A arte, o amor e o trabalho são tábuas de salvação. Sensíveis, é verdade, mas possíveis.
por Rafael Alberto


