Uma viagem de ônibus é raramente tão emocionante como a que aqui será descrita.
Era uma manhã de quarta feira, como todas as outras. Nem tão ensolarada, muito menos chuvosa; não havia nenhuma alteração climática que fizesse pensar na especial estranheza que este dia assumiria.
Havia no ônibus os passageiros regulares, que se conheciam por acenos educados e cordialmente forçosos e não apresentavam nada de particularmente excitante (a não ser o moço que subia no ponto logo depois do lado, este sim enlouquecia as meninas que pareciam por vezes tomar o ônibus com o único propósito de admirá-lo.) E havia os passageiros que por ventura de um compromisso atípico terminavam por se juntar aos de sempre. Esta invasão estrangeira nunca era bem vista; os que adentravam logo percebiam os olhares maldosos dotados de uma hostilidade qualquer.
Nunca teriam antecipado o que entraria hoje em suas vidas e como aquilo lhes custaria a sair.
No ponto que segue o conjunto de edifícios azuis entrou no ônibus nossa heroína. Todos os passageiros estavam sonolentos e não a teriam notado não fosse a violenta inclinação que seu peso provocou ao pisar no primeiro degrau. Houve leve sinal de pânico.
Depois de um minuto e meio a Gorda conseguiu transpor os três degraus e o ônibus equilibrou-se novamente; apesar de ouvir-se claramente o profundo ronco do motor que a partir deste instante teve de trabalhar dobrado.
Todos a encaravam como se nunca tivessem visto coisa parecida antes (e de fato não tinham), porém, logo depois o choque passaria, não fosse o que aconteceu.
A Gorda tinha o dinheiro na mão e muita pressa. Foi caminhando aquele terço inicial do veículo que antecede a catraca. Entregou o dinheiro ao apreensivo cobrador que neste momento tinha todos os músculos de seu corpo tomados por um rigor inexplicável. A Gorda encheu os pulmões de ar, procurou, em vão, encolher a imensa barriga e lançou-se contra os ferros em direção ao outro lado. Assim como perspicazes e silenciosos observadores haviam antecipado: a Gorda entalou.
Paremos aqui por um segundo para descrever a magnitude do corpo desta mulher. Em primeiro lugar notava-se a altura descomunal, o que fazia com que sua pequena cabeça quase tocasse o teto do veículo. As crianças ousavam perguntar às suas mães se se tratava de um gigante; e as mães hesitavam antes de dizer que não. Suas mãos e pés eram minúsculos em comparação ao resto de seu corpo, era como um desafio à física que estes miúdos pés pudessem equilibrar seu corpo todo.
O que mais impressionava a todos, entretanto, era a magnitude da circunferência de sua barriga. Ela se parecia com um daqueles brinquedos de crianças cujas proporções se distorcem para atiçar-lhes a cabecinha. Seu rosto quase nada tinha de humano fora o nariz, a boca, os olhos, mas que também são atributos comuns a diversos outros animais que habitam a face da Terra. A estranheza que fazia desta mulher uma criatura tão assustadora era a vasta superfície de seu rosto e a concentração dos ógãos do sentido bem no meio de sua face, um pouco elevados. É evidente que as orelhas se encontram onde se espera. Não havia explicação científica satifatória para esta aberração anatômica.
A Gorda respirava de maneira ofegante, e adquiriu na cútis um tom distintamente avermelhado o que fez com que alguns passageiros cobrissem o rosto para não se sujarem com as entranhas que tingiriam o ônibus caso ela explodisse.
Os passageiros disfarçavam seus anseios olhando para a janela e apreciando a paisagem; uns com vergonha e outros horror. Finalmente uma criança gritou: “mamãe, aquela mulher vai morrer!”. Os adultos desdenharam a profética fala desta criança julgando-a indecorosa e sem tardar estamparam em seus rostos severos olhares de desaprovação.
O medo pairava e num momento que desesperou a todos a Gorda grunhiu dolorosamente um tom estridente que causou dor aos ouvidos de todos. O desespero era silencioso; alguns passageiros acreditavam que eventualmente ela conseguiria desvencilhar-se sozinha dos ferros e tornar-se motivo de risos solidário e histórias incomuns a serem contadas à mesa de jantar e mesas de botecos. Os pessimistas bufavam a desmarcar seus compromissos; os místicos rezavam freneticamente evocando o poder de deus; e os realistas não sabiam bem o que esperar.
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ônibus parte I
21 Novembro, 2009 · Deixe um comentário
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A vaca premiada
7 Novembro, 2009 · Deixe um comentário
por Luís Camargo
Até onde meus olhos hipermétropes me permitem ver a mediocridade anda alta por aí. Ok, assumo o fato de que o conteúdo de dentro contamina o material de fora, mas o que é nossa consciência senão um pedaço microscópico de uma realidade infinita. De qualquer maneira os graves e agudos não ressoam dentro dessa carcaça de carne e osso desde uma infância ancestral, em seu lugar um coro de frequências médias cantam um limbo sem fim. Na verdade, ultimamente, tenho procurado reencontrar essa infância esquecida. Sei que não é bom viver na nostalgia, mas gostaria de saber qual foi o momento exato em que deixei de ser uma criança feliz e criativa para me camuflar em meio a esses burocratas e suas relações protocolares. Se pelo menos fosse um índio lembraria do rito de passagem que inaugurou minha fase madura, mas de concreto nada tenho. Reais mesmo são as responsabilidades da vida adulta, que se impõe e arrefecem o espírito. Como recompensa para minha submissão recebo o salário para pagar as contas e um atestado de incompetência, já que o sal mensal drenou reiteradamente todo o líquido que lubrificava a possibilidade de criação.
Digo isso pois acho que a corrupção humana ocorre de fora para dentro. Dessa maneira, para localizar o momento em que me tornei um chato é preciso reconhecer quem e quais forças me persuadiram a essa condição mórbida. O problema é que essa tarefa não é nada fácil. A chance de estar documentada é mínima e provavelmente minha dislexia não me permitiria entender os códigos grafados. Mas por sorte esses dias contaram-me a história de um parto que me chamou a atenção. Pareceu-me uma luz distante para essa resposta tão crucial. É uma epopéia verídica e não difere muito da gênese de todos nós.
A criança que estava por nascer vinha de um útero comum, não um qualquer, mas um desses que pare o que todos parem. Genérico também seria o dia não fosse o calor exagerado. Contrapondo-se a agitação dos inexperientes enfermeiros e do médico, que ansiava terminar logo com aquilo, pairava a tranqüilidade da parturiente e a preguiça visivelmente tropical do bebê que custava a sair. O obstetra tinha pressa pois um outro parto de maior importância e proporção não saia de sua cabeça; Afrodite, sua vaca premiada, estava prestes a dar à luz em sua fazenda.
Enquanto Afrodite esperava, na sala de cirurgia, não se sabe ao certo o porquê, mas o fato é que a criaturinha, em seu momento heróico e metamórfico, de aquático para terrestre, talvez pressentindo a vulgaridade do mundo profano que aguardava sua chegada, planejou uma entrada triunfal no planeta dos vestidos e extubados. Sim, queria nascer de bunda e só sairia dali se fosse de bunda. Os enfermeiros ficaram apavorados e o médico, enfurecido com o capricho estilístico da criança, esbravejou: – “Eu vou tira-lo daí, seja pelo pé, seja pela cabeça.”
A parturiente não entendia o que se passava e nada pôde fazer com o que se sucedeu, pois recebeu uma dose cavalar de anestesia. Sua barriga foi aberta e o bebê, chorando, arrancado de dentro de seu ventre. – “Foi o parto de mais um do rebanho!” – disse o médico que em seguida arrancou para sua fazenda, onde daria total atenção à vaca premiada.
Pobre criança! Bancou o preço pela entrada na cultura: lançada ao coro de freqüências médias, mas não sem antes urrar seu agudo lamento.
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Feriados sem graça
31 Outubro, 2009 · 2 Comentários
por Adriano Lira
O brasileiro não gosta de caveiras.
Passaremos, hoje e depois de amanhã, pelas festas mais estranhas de todas e — o mais impressionante — nenhuma dessas festas tem muita repercussão no país mais estranho de todos, o Brasil.Dia 31 de outubro, hoje, é o dia das Bruxas, o Halloween, e segunda-feira, dia 02 de novembro, é o dia dos Finados.
O brasileiro é o povo que mais adora tomar um banho no lago do paganismo. O brasileiro acredita em Deus, em Jesus, na Zíbia Gasparetto, no Walter Mercado e no Saci Pererê ao mesmo tempo… e ainda acha que vai para o céu! Bom, quem sou eu para julgar? Mas o engraçado é que nessa terra abençoada por Deus e pelo Boitatá, não há espaço para caveiras, gostosuras, travessuras e festinhas no cemitério.
E o dia das bruxas, o Halloween, se tornou uma das festas principais do país mais puritano da América, os EUA! Lá, aquelas abóboras tradicionais dominam o cenário e crianças vestidas que nem o Satanás ficam andando pelas ruas vazias pedindo doces e guloseimas para vizinhos satisfeitos, que passam a noite distribuindo quilos de balas para os rebentos transeuntes. Depois que crescem, os adolescentes se vestem como o Satanás e se refugiam em clubes, onde podem dançar e namorar. Depois que os adolescentes crescem, eles
passam a comprar quilos de balas e as distribuem para as criancinhas que passam pela rua. É um ciclo sem fim, fazendo com que todos fiquem acordados durante todo o Halloween.
Enquanto isso, no Trópico de Capricórnio, adolescentes só sairão de casa porque hoje é sábado e tem balada. E nada de se vestir como o Satanás. No baile funk, as mocinhas vão do jeito que o Satanás gosta: sem roupas. E se alguma criancinha estiver andando pelas ruas, provavelmente ela será raptada por alguém e vendida ao exterior — portanto, as crianças não saem de casa e os adolescentes que crescem tomam conta das crianças. O 31 de outubro no Brasil não passa de uma data comum e sem graça.
No dia 02 de novembro, há a festa mais divertida do México, a Festa do dia dos Mortos, onde as pessoas saem para celebrar e festejar pelos morto
s que já não podem fazê-lo. A festa tem origem indígena, mas como os espanhóis adoravam uma festa, participaram da bagunça também. Neste dia, os cemitérios tornam-se um playground, onde todos decoram as sepulturas dos seus entes queridos, dançam músicas típicas e vestem caveiras típicas do Satanás enquanto comem MUITO, pois os vivos devem comer pelos mortos que já não o fazem. E ainda há os doces típicos, como as caveiras de açúcar, as balinhas de ossos e o pão dos mortos. Os vivos deixam também cigarros e tequila para os mortos. Os cigarros e a tequila sempre acabam – não é só no Brasil que roubam cemitérios…
Enquanto isso, no Brasil, uma parcela do pessoal está pouco se lixando para os defuntos: foge para a praia, demorando 18 h no trajeto São Paulo – Santos e passa o dia dos mortos comendo muito – mas frango com farofa, e na praia. Os mais velhinhos pegam seu carro e vão acender velas no Araçá – os mortos daqui passam mais fome. E o pior, alguns adolescentes que não vão à praia e acham cemitério um saco ficam estudando e fazendo trabalhos para a faculdade, o que é pior que a morte.
Só no Brasil mesmo…
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O homem de 1 metro e 70
24 Outubro, 2009 · 1 Comentário
Certa vez o homem de 1 metro e 70 foi ao médico para saber se havia alguma coisa de errada com sua altura, este o assegurou:
- Meu caro, o mundo foi feito para o homem de 1 metro e 70. Fique tranquilo, sua estatura é digna de passar por todas as portas. Você não é suficientemente alto para dar com a cabeça no batente nem extremamente baixo a ponto de não alcançar a maçaneta. Vá sossegado.
Por aí foi o homem de 1 metro e 70, convicto de que a existência o prometia uma trajetória de sucesso. E realmente o percurso não o ofereceu nenhum susto. Passou por tantas portas quanto era possível. Nenhuma passagem lhe parecia intransponível, bastava apenas utilizar-se do método adequado: um passo após o outro.
Um belo dia, no entanto, o homem de 1 metro e 70 passou por uma noite difícil. Sofria de sérios problemas digestivos. Tentou deitar-se mas caiu, a cama parecia ter encolhido. Ficou furioso.
Após uma noite em claro retornou ao médico que havia consultado outrora:
- Doutor, o senhor me prometeu uma vida plena mas tudo o que sinto é cansaço. Por que minha cama não me quer?
- É evidente, você passou por tantas portas que isso constitui a essência de sua vida, quando tentou se deitar não encontrou sentido em descansar. Sua cama não encolheu, você é que nunca se deitou nela. Para uma vida que consiste em “progredir”, de porta até porta, o descanso não possui significado. Você esta morto.
por Luís Camargo
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Cadê a graça?
17 Outubro, 2009 · 2 Comentários
Por Adriano Lira
Hoje eu acordei de mau humor.
Comecei a pensar e cheguei à conclusão de que o mundo está sem graça demais. Qualquer coisinha na TV vira “humor”. Qualquer cearense cabeçudo vira o “rei das Piadas”, o “novo Didi Mocó”. Sou filho de cearense, sem graça como o Didi, e o salário dele é seiscentas vezes o meu. Acho que o mundo tá de graça comigo, não pode ser.
E assim, a gente continua sem rir. Chega o dia da folga, domingo, e temos que assistir a isso:
Não dá vontade de que a segunda-feira chegue logo?
Nem sou daqueles que defendem o humor “politicamente correto”, digamos assim, só que as pessoas se respeitem. Tirar um sarro com o homossexual, por exemplo, foi algo que sempre ocorreu e, provavelmente, ocorrerá com essa e outras minorias… mas só se veem nos programas estereótipos sem graça tratando dessas minorias. Até os próprios humoristas arrancam rabo entre si pela defesa do “politicamente correto”. Querem coisa mais sem

Esse aguenta muita besteira, viu?
graça do que humoristas falando sério e trocando farpas pela imprensa? Isso aconteceu recentemente no atrito entre Danilo Gentili, do CQC, e Hélio de la Peña, do Casseta e Planeta.
A carência que as pessoas têm é aparente, principalmente pelos exemplos do descompromissado Pânico na TV, que até 1° lugar no Ibope já abocanhou e do compromissado CQC, que conquistou a classe média paulista. Ambos os programas se tornaram o carro-chefe de suas emissoras, superando os insossos Casseta e Planeta e A Praça é Nossa.
Apesar de que, com o advento das novas tecnologias, qualquer boçalidade se torna um sucesso, como se pôde acompanhar tempos atrás com o humorante Marcos da Silva Herédia, o Zina, que conquistou o país com uma única palavra: Ronaldo!
Sem contar no barraco causado pela namorada de Pedro, devido à perda de seu chip, no Espírito Santo, com milhões de visualizações pelo Youtube.
Para salvar quem não aguenta mais tudo isso, as alternativas que mais se destacam são a Internet, lógico, com sites como o youtube e blogs de humor dos mais variados tipos, como o Hoje é um Bom Dia . Outra alternativa é o crescimento da chamada comédia Stand-up, onde um único humorista tem a tarefa de divertir a plateia, baseado em episódios engraçados do cotidiano – quase como um cronista -, onde boa parte dos integrantes do CQC e humoristas mais underground se destacam.
Até dá pra se divertir no mundo, mas tá ficando difícil. Temos que saber onde e com quem se divertir. E eu não tive intenção nenhuma de fazer ninguém rir aqui.
Ou se esqueceram que eu tava de mau humor?
(Esse final é pra vocês rirem, tá?)
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Cadê?
10 Outubro, 2009 · Deixe um comentário
eu mesmo ando me perguntando, mas uma pequena dica apontaria para o meio de duas tempestades misteriosas e sem aparente explicação; apontaria também para os becos escuros que ninguém se aventura a entrar; para os estados entorpecidos que o ser enfrenta em decorrência dos alcóois que entram pela boca e por aqueles que saem de dentro da nossa cabeça. Há outros me fazendo companhia e devo admitir que esse lugar não é difícil de achar; a cartografia está impressa nos grandes romances (e em alguns pequenos também), porém devo advertir que a caminhada é longa e ao chegar não saberá onde está por que o porteiro deste lugar nunca existiu e só se percebe que é ali que se está depois de há muito já ter se imbricado.As condições menos abstratas do meu paradeiro podem se resumir em algum lugar no meio de uma cidade inóspita cujos cheiros só tendem a enjoar.
1 coração pequeno e acelerado ocupa a parte mediana do corpo; cercado de uma bruta redoma.
2 monstruosos sacos de ar que às vezes parecem ter minúsculos furos.
1 estômago relutante que se cansa do trabalho ardiloso da alquimia; por vezes faz voltar aquilo que recebe.
1 quilométrico percurso tubular que se enrola sobre si mesmo para não passar frio.
1 cu que faz passar tudo que vem de dentro com aspecto irreconhecível sob olhares pouco minuciosos.
Há também, no topo de tudo, um emaranhado que até hoje ninguém sabe o que é; sabemos que seu peso é imenso para alguns ombros e para outros, nem tanto. É por isso que em minhas jornadas inóspitas estou sempre a bufar, muitas vezes enjoada e quase sempre com a cabeça pendendo para a frente.
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3 Outubro, 2009 · 2 Comentários

Ueba! Olimpíadas no Brasil! Puxa, até o Lula chorou!
Ok, mas sem chorumelas. Vejo na televisão, à tarde, pessoas se abraçando pela comemoração; vejo na faculdade, à noite, pessoas críticas reclamando dos Jogos, que o dinheiro poderia estar sendo utilizado na saúde, educação, etc., e que a Globo aliena as pessoas fazendo crer que esta escolha só vai encobrir a roubalheira dos cofres públicos e tal. Bom, como em uma crônica posso ser o que eu quiser, vou tomar uma linha bem alienada. Meu pai sempre me disse que o homem ficou triste assim que passou a se dar conta do que acontece. Como quero ser feliz, serei um ignorante e alienado brasileiro pobre. Isto é, vai ser super legal ter uma Olimpíada na América Latina!
Dinheiro público sendo jogado fora? Já jogaram tanto mesmo, um a mais, um a menos, tanto faz… pensem assim, cri-críticos. O Brasil vai gastar R$ 29 bilhões nas Olimpíadas… vamos fazer alguns cálculos inexatos – tem que ser calculado com aquele jeitinho brasileiro – para ver como vai pesar no nosso bolso? O PIB, hoje, do Brasil, é de US$ 2 trilhões, algo como R$ 4 trilhões atualmente. Como faltam sete anos para a quizumba, teremos R$ 28 trilhões: gastaremos 0,1% da riqueza natural para nos divertimos com turistas e esportistas do mundo inteiro. Eu, pelo menos, me desfaço de 0,1% do meu dinheiro para ver suecas correndo, jogando vôlei e nadando. E você? E se houver superfaturamento de, sei lá, dez vezes o valor inicial? Ah, dane-se, eu continuo me desfazendo de 1% para ver suecas correndo, jogando vôlei e nadando.
Empregos serão gerados. A demanda de assaltantes aumentará junto com a vinda de turistas, que exigirão segurança, culminando no aumento do número de policiais. O consumo de sanduíches naturais triplicará, trazendo mais garis sorriden
tes às praias, para limpar toda a caca. Pessoas descerão do morro para tocar samba para turistas, ganhando assim, dinheiro. Olha, que legal.
Serão criados estádios de uma porção de esportes que ninguém no Brasil conhece e que, após as Olimpíadas, serão tomados por populares e sem teto, trazendo uma nova alternativa para as minorias segregadas da cidade. Paulistas terão inveja do Rio e transformarão um dos piscinões da Marginal em praia, para talvez sediar uma Olimpíada em 2150. O Flamengo terá um estádio.
Provavelmente, o Brasil terá novos ídolos nacionais, que durarão em média dois meses. Algum torcedor chorão se tornará uma celebridade instantânea e os Jogos, lógico, serão condicionados à programação da Rede Globo. Ah, mas o melhor mesmo, é que até 2016 Galvão Bueno esteja morto.
Sou alienado, mas sou feliz. Brasil-sil-sil!
Por Adriano Lira
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Direito de resposta nerd
19 Setembro, 2009 · Deixe um comentário
Tenho que assumir, sou um nerd!
Se tem algo na moda hoje é a defesa das minorias. De uns tempos pra cá, grupos desse tipo (homossexuais, negros, muçulmanos, comunistas…) começaram a se organizar para mudar a ordem vigente, seja com violência ou com passeatas na Paulista. Mas, dentre esta maioria de minorias, deixaram uma de fora: obviamente, a minoria da qual faço parte. Não tenho vergonha de confessar que sou asmático, tenho espinhas na cara e corto meu cabelo no molde de uma cuia. Infelizmente, para qualquer coisa, um nerd deve ser diferente: passeatas e violência não resolvem nada. O objetivo é dominar o mundo.
Ser nerd é um estilo de vida. Quando alguém “normal” passa o dia na frente do computador é porque o trabalho não deixa. Nerds passam o dia no computador porque são, simplesmente, nerds.

Orgulho nerd
Nerds não são necessariamente inteligentes, são simplesmente nerds. Pessoas normais usam óculos porque tem problemas de visão: nerds usam óculos porque são nerds. Logo, é uma minoria que não tem uma definição fiel ao significado da palavra, nerds são nerds e pronto.
Ao contrário do que se pensa, o nerd não é o mais inteligente da sala e nem será o mais bem-sucedido. É simplesmente uma pessoa que gosta de viver uma vida paralela à do mundo real e ter hábitos totalmente diferentes dos de um ser humano real. A palavra chave é computador. O computador do nerd é o melhor amigo e o RPG é o entretenimento perfeito, pois o mundo real é um saco. Jogando Tíbia, por exemplo, o nerd pode-se tornar o que sempre sonhou: um elfo, um gnomo ou alguma dessas criaturas estranhas. Pela internet, o nerd é bonito e pode arrumar uma namorada virtual, que pode ser uma nerd como ele. Porém, adoramos ser assim e desse jeito entramos na faculdade, pegamos os melhores empregos e criamos ferramentas nerds como o Twitter, o Google e a Microsoft. O esquema é fazer com que todos se tornem nerds como nós e que todos assistam desenho japonês até a terceira idade. A parte do desenho japonês, infelizmente, não está dando tão certo.
Mas infelizmente minorias são minorias. Continuamos na sarjeta, mexendo no Messenger e jogando Nintendo Wii. Mas ainda chegará o dia em que todos se tornarão nerds e nosso plano maléfico será concluído.
Agora vou jogar Tíbia.
Por Adriano Lira
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Dejetos do progresso
12 Setembro, 2009 · 3 Comentários
Por Luís Camargo
Estava no ônibus a caminho da capital. A disputa pelo apoio de braço com o passageiro vizinho e a leitura indigesta do jornal diário de maior circulação me inspiraram uma tremenda vontade de dormir.
Sonhei profundamente com um recinto solitário, de ar viciado, onde me encontrava deitado sobre uma maca fria. Ao meu lado, uma mesa de alumínio incandescente dispunha afiados instrumentos cirúrgicos de maneira desordenada. Tubos de ensaio cheios de líquidos com cores venenosas completavam a geografia atordoante da câmara estéril. Por trás de um vidro hermeticamente instalado, homens de semblante autoritário observavam vestidos solenemente com mascaras e luvas. A blindagem bruta da sala turvava o som que vinha de fora. As poucas palavras que escapavam às escassas frestas chegavam ou sem conteúdo ou com o sentido contrário daquilo que realmente significavam. Em meio a tanto desconforto e insegurança uma luz crescia de maneira gradual e violenta, derramando-se em tudo o que havia e ferindo minha retina.
Acordei assustado. “Que sonho estranho!” – pensei. Quais seriam os resíduos de uma realidade mórbida que teriam contaminado minha tranqüilidade de espírito? Olhei pela janela e a consciência me puxou pelos cabelos. São Paulo, 8 de setembro de 2009. Quatro da tarde, a cidade embebedada em um dilúvio colérico. O rio Tiete parecia entrar pela goela, ao efeito que a conversa de dois passageiros ilustrou ironicamente a situação: “tem tanta tranqueira nesse rio que dá pra mobiliar um castelo!”. O trânsito mesclava os três carros chefes da estética paulistana: o fedor, a sujeira e o caos. Tudo me pareceu inverossímil, um grande experimento laboratorial. “Se tivesse as chaves poderia ser livre…” – imaginei – “…trancaria todas as portas”.
Voltei a dormir um sono pesado, onde um rio de dejetos assombrava meu castelo de sonhos.
Esse texto foi inspirado na seguinte passagem de Walter Benjamin acerca do quadro “Angelus Novus” de Paul Klee:
“Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus.
Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente.
Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas.
O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado.
Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés.
Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las.
Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos de progresso.”
Walter Benjamin, “Obras Escolhidas”, tradução: Sérgio Paulo Rouanet, 1994 – 7.ed. Editora Brasiliense. p.226.
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Criatividade eleitoral
5 Setembro, 2009 · 1 Comentário
Ah, esses políticos de hoje em dia, viu…
Em um dos meus raros passeios pela internet (porque computador não é a minha área), me deparo com coisas pitorescas, como o twitter do Fernando Gabeira e do José Serra, o blog do Planalto e peraltices outras de nossos amáveis políticos nacionais. É impressionante como esta odiosa ferramenta consegue lançar seus malacafentos tentáculos modernos até sobre coisas que são imutáveis, como a nossa honestíssima política nacional. Para completar, ainda há o debate sobre como (se houver) será a propaganda eleitoral pela internet – além dos agradáveis spams e pop-ups, poderemos também nos deparar com seres como estes saltando aos nossos olhos.
Se há uma característica que se destaca dos políticos é a sua criatividade (velada, ora pois, com a defesa voraz da honestidade). Antigamente, para

Vice-prefeito de São Bernardo do Campo: au!
angariar votos, os coroneis pressionavam “seu rebanho” a votar neles, sob o risco de perderem o pedaço de terra onde plantavam sua macaxeira. Após isso, os políticos foram ficando mais afáveis, cedendo aos seus correligionários presentes como maços de cigarro barato, café e argamassa (hoje, presentes do tipo são conhecidos por “bolsa família” e semelhantes). Passamos pela moda (hoje permanente) da candidatura de artistas de conhecimentos políticos inquestionáveis e figuras, no mínimo, excêntricas. Ah, sim. Houve uma época, uma tal “Revolução de 1964”, em que ninguém percebeu que havia parado de votar – mas não teve problema, porque o futebol estava muito mais interessante, sem contar que aqueles presidentes ficavam até bonitos com aquela roupa verde e cara de mau.
Depois desta “Revolução”, houve escolhas muito sensatas dos representantes da nação. Um foi pro beleléu, seu substituto fez e continua
fazendo suas parlapatices e o seguinte ficou em posição de impedimento. A criatividade sempre foi aparente. O Brasil comemorou a eleição do cardiopata como se tivesse votado nele, seu substituto foi tratado como herói e vilão com seu plano mirabolante e elegeu um candidato jovem e collorido com o peso da Globo, democrática como nosso país.
Agora, os candidatos invadirão o melhor lugar para se fazer propaganda, o glorioso computador. Ironias à parte, eles continuam inovando, para fazer a cabeça do jovem brasileiro, cada vez menos patriota. É a melhor maneira de arrebanhar votos de um segmento que tende a ser apolítico. Fazer campanha criativa sempre deu certo e não vai ser desta vez que isso falhará.
Adriano Lira
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