Uma viagem de ônibus é raramente tão emocionante como a que aqui será descrita.
Era uma manhã de quarta feira, como todas as outras. Nem tão ensolarada, muito menos chuvosa; não havia nenhuma alteração climática que fizesse pensar na especial estranheza que este dia assumiria.
Havia no ônibus os passageiros regulares, que se conheciam por acenos educados e cordialmente forçosos e não apresentavam nada de particularmente excitante (a não ser o moço que subia no ponto logo depois do lado, este sim enlouquecia as meninas que pareciam por vezes tomar o ônibus com o único propósito de admirá-lo.) E havia os passageiros que por ventura de um compromisso atípico terminavam por se juntar aos de sempre. Esta invasão estrangeira nunca era bem vista; os que adentravam logo percebiam os olhares maldosos dotados de uma hostilidade qualquer.
Nunca teriam antecipado o que entraria hoje em suas vidas e como aquilo lhes custaria a sair.
No ponto que segue o conjunto de edifícios azuis entrou no ônibus nossa heroína. Todos os passageiros estavam sonolentos e não a teriam notado não fosse a violenta inclinação que seu peso provocou ao pisar no primeiro degrau. Houve leve sinal de pânico.
Depois de um minuto e meio a Gorda conseguiu transpor os três degraus e o ônibus equilibrou-se novamente; apesar de ouvir-se claramente o profundo ronco do motor que a partir deste instante teve de trabalhar dobrado.
Todos a encaravam como se nunca tivessem visto coisa parecida antes (e de fato não tinham), porém, logo depois o choque passaria, não fosse o que aconteceu.
A Gorda tinha o dinheiro na mão e muita pressa. Foi caminhando aquele terço inicial do veículo que antecede a catraca. Entregou o dinheiro ao apreensivo cobrador que neste momento tinha todos os músculos de seu corpo tomados por um rigor inexplicável. A Gorda encheu os pulmões de ar, procurou, em vão, encolher a imensa barriga e lançou-se contra os ferros em direção ao outro lado. Assim como perspicazes e silenciosos observadores haviam antecipado: a Gorda entalou.
Paremos aqui por um segundo para descrever a magnitude do corpo desta mulher. Em primeiro lugar notava-se a altura descomunal, o que fazia com que sua pequena cabeça quase tocasse o teto do veículo. As crianças ousavam perguntar às suas mães se se tratava de um gigante; e as mães hesitavam antes de dizer que não. Suas mãos e pés eram minúsculos em comparação ao resto de seu corpo, era como um desafio à física que estes miúdos pés pudessem equilibrar seu corpo todo.
O que mais impressionava a todos, entretanto, era a magnitude da circunferência de sua barriga. Ela se parecia com um daqueles brinquedos de crianças cujas proporções se distorcem para atiçar-lhes a cabecinha. Seu rosto quase nada tinha de humano fora o nariz, a boca, os olhos, mas que também são atributos comuns a diversos outros animais que habitam a face da Terra. A estranheza que fazia desta mulher uma criatura tão assustadora era a vasta superfície de seu rosto e a concentração dos ógãos do sentido bem no meio de sua face, um pouco elevados. É evidente que as orelhas se encontram onde se espera. Não havia explicação científica satifatória para esta aberração anatômica.
A Gorda respirava de maneira ofegante, e adquiriu na cútis um tom distintamente avermelhado o que fez com que alguns passageiros cobrissem o rosto para não se sujarem com as entranhas que tingiriam o ônibus caso ela explodisse.
Os passageiros disfarçavam seus anseios olhando para a janela e apreciando a paisagem; uns com vergonha e outros horror. Finalmente uma criança gritou: “mamãe, aquela mulher vai morrer!”. Os adultos desdenharam a profética fala desta criança julgando-a indecorosa e sem tardar estamparam em seus rostos severos olhares de desaprovação.
O medo pairava e num momento que desesperou a todos a Gorda grunhiu dolorosamente um tom estridente que causou dor aos ouvidos de todos. O desespero era silencioso; alguns passageiros acreditavam que eventualmente ela conseguiria desvencilhar-se sozinha dos ferros e tornar-se motivo de risos solidário e histórias incomuns a serem contadas à mesa de jantar e mesas de botecos. Os pessimistas bufavam a desmarcar seus compromissos; os místicos rezavam freneticamente evocando o poder de deus; e os realistas não sabiam bem o que esperar.
Links
Arquivos
Categorias

passam a comprar quilos de balas e as distribuem para as criancinhas que passam pela rua. É um ciclo sem fim, fazendo com que todos fiquem acordados durante todo o Halloween.
s que já não podem fazê-lo. A festa tem origem indígena, mas como os espanhóis adoravam uma festa, participaram da bagunça também. Neste dia, os cemitérios tornam-se um playground, onde todos decoram as sepulturas dos seus entes queridos, dançam músicas típicas e vestem caveiras típicas do Satanás enquanto 


tes


fazendo suas parlapatices e