Arquivo do mês: abril 2010

Sentido em mão-dupla

O ponto de encontro de Paradas em Movimento e Koyaanisqatsi.

 

Por Cau & Roni

 

A busca do sentido
 
 
            “Papai, o que é isso” – pergunta um garoto loiro, cerca de 8 anos, ao passar em frente ao monitor que exibe o vídeo “Cavar”, de autoria de Cinthia Marcelle, na exposição “Paradas em Movimento – Wonderland: Ações e Paradoxos”, que ocorre de 6 de fevereiro à 5 de abril, no centro cultural de São Paulo, próximo à estação Vergueiro do metrô. Curadoria de Pamela Prado e Rafael RG.
            “Uma retro-escavadeira, filho” – responde o pai, após  aproximadamente 8 segundos de perplexa reflexão sobre o que vê na tela plana de LCD de aproximadamente 30 polegadas: uma paisagem desértica, tipicamente saariana, um homem pilotando a retro-escavadeira amarelo-ocre que, lenta e incessantemente, se movimenta em 8, revolvendo a terra e marcando o solo com o símbolo do infinito. O vídeo tem 8 minutos. É repetido, repetido…
            “Cavar” está no espaço Caio Graco (1º andar do centro cultural), que pode receber aproximadamente 100 pessoas.
            Parado em frente ao monitor o telespectador assiste ao movimento da retro-escavadeira. Parado, em movimento.
            O paradoxo se dá entre o corpo e a mente de quem assiste pois enquanto observa, parado, a mente percorre as mais sinuosas trilhas para procurar um sentido para o que os olhos vêem. Algumas mentes acham uma retro-escavadeira, outras, muito mais.
            Atrás deste monitor, parado, há outro, que exibe um vídeo de Laura Glusman, intitulado “Nado y Nada”. Uma garota jovem, 20 anos talvez, sadia, bonita, nua nada, na água, óbvio, mas numa água que, turva, refletindo luz – natural ou não –  não se assemelha à água de piscina, nem de lago, nem de rio, em fim, não se assemelha a nada. O vídeo recomeça e, literalmente, nada. A garota fica sempre parada, em movimento de nado. Absolutamente nada!

Uma garota nada e está sempre parada.

            Devir. Outro monitor, outro banco em frente a ele, a mesma atitude.
            Devir é a palavra que Gilles Deleuze usa para definir uma ação criativa, nova e de cunho social praticada por uma comunidade com consciência política. Um ato de resistência a uma repressão imposta por autoridades ou governantes.
            É o primeiro de centenas de verbos que uma mão, destra, escreve e apaga, com pincel atômico preto sobre um quadro branco que o monitor exibe, incorpora. Detalhe: os verbos sempre no infinitivo. O nome do vídeo, sem áudio, é “Apagar”, tem 12 minutos e foi concebido por Marilá Dardot.
            Remando contra a maré. Na água do mar, dessa vez nitidamente do mar, um homem, vestido de preto, solitário em uma canoa que parece uma ilha individual, pelo fato de ter a bordo, verdadeiros e vivos, de fato, um coqueiro e um arbusto. Talvez não esteja tão solitário. Em 3 minutos ele vence a correnteza e cruza o monitor, sem um som sequer. O vídeo se chama “Remar”, é de Antti Laitinem.
            “Sei que vou morrer, não sei o dia, levarei saudades da Maria. Sei que vou morrer, não sei a hora, levarei saudades da Aurora.”.
            A “Parada Sonora” – espécie de discotequeira eletrônica estilizada – tem Ataulfo Alves e muitas outras preciosidades que propiciariam ocasião para uma excelente e alegre festa, se não pudessem ser ouvidas apenas por uma ou duas pessoas por vez, com fones de ouvido. Talvez por causa das músicas de Bethoven, que também integram o repertório.
            Há outros vídeos e “Paradas Sonoras” no espaço Flávio de Carvalho – andar térreo do centro cultural – cujos sentidos profundos podem ser definidos, quiçá, somente pela língua conjunta do amor de um casal formado por um homem negro e uma mulher oriental. Mas os solitários homens, altos, taciturnos, e as lindas loiras de mini-saia azul que transitam pelo salão ‘clean’, muito agradável aos olhos – estudantes do colégio Santo Agostinho – também se esforçam para lhes dar algum significado.
            Na biblioteca do centro cultural – subsolo – entretanto, é que se apreciam os objetos mais desafiadores que há na exposição, do ponto de vista da cognição.
            É impossível esquecer o vídeo “Desvios de Cotidianos”, de Adriana Aranha. Um dos mais exóticos, sem dúvida. Dois minutos intermináveis de imaginação e significação.
            É claro que, assim como os pais, os filhos, os casais, as lindas loiras, os estudantes que circulam pela exposição, cada indivíduo terá a sua própria interpretação dos objetos a mostra.
            Vai uma impressão: às vezes fazemos um trabalho ou esforço, sistematicamente, sem sentido.
            Imperdível. Até porque, sem gastar nenhum centavo, de quebra, é possível passear pelo centro cultural, ler um bom livro, observar jovens dançando break, casais incensuráveis gorjeando no lindo jardim, lindas mulheres de rosto angelical, como estátuas, se refrescando. É possível, finalmente, vislumbrar que tudo pode ter muito sentido mesmo, e principalmente, quando não há nenhum sentido envolvido.
 
 
O sentido, no sentido oposto.
 
O documentário Koyaanisqatsi, de Godfrey Reggio, foi realizado em 1983, é o  primeiro protesto, em audiovisual, contra a desordenada e destrutiva ocupação humana no globo terrestre. O título significa “vida  em desequilíbrio” na língua Hopi.
A narrativa audiovisual, completamente sem diálogos, se inicia com imagens de pinturas rupestres dos homens das cavernas e uma simulação de explosão que remete ao imaginário do surgimento da Terra. Em seguida, diversas tomadas aéreas do Grand Canyon, nos EUA, se misturam às imagens mais objetivas de rochas e detalhes do solo da região. As cenas aéreas avançam no espaço até chegarem a uma pedreira e a uma rede elétrica, impactantes intervenções do homem nesta paisagem natural.
A partir de então, o cenário se torna cada vez mais urbano, culminando com o caos da metrópole de Nova York: edifícios monumentais, a grande malha tecida por inúmeras avenidas, estradas e trilhos de trem. Carros e pessoas andando freneticamente pela cidade.
Neste percurso, é perceptível a mudança brusca na trilha sonora criada pelo músico americano Philip Glass, que se torna mais sinistra e acelerada com a ruptura da paisagem natural para a urbana. A impecável e poderosa trilha sonora conduz e completa a narrativa das imagens.
Outro efeito interessante é que muitas das cenas têm sua velocidade de exibição alterada. Tanto na primeira parte, onde é mostrada a exuberância e o poder da natureza, quanto na segunda, onde se exibe o caos da urbanização moderna, as imagens são exibidas em velocidade mais lenta ou mais rápida que o tempo real. Em determinados momentos é perceptível o paralelo visual entre cenas urbanas e da natureza como, por exemplo, as cenas de ondas do mar exibidas no começo do filme e as cenas de “ondas de pessoas” nas escadas rolantes do metrô de Nova York.
A idéia de alteração do tempo tem tudo a ver com o argumento do filme, que procura mostrar como o ritmo de vida do homem moderno é violentamente mais acelerado do que antes, em descompasso com o tempo da natureza. Além disso, fica claro como o avanço da tecnologia, tão cultuado em nossa sociedade, é um dos grandes responsáveis pela alteração do ciclo natural da Terra. Sendo assim, Koyaanisqatsi é uma metáfora da “evolução” do homem desde seus primórdios.
O filme nos faz refletir sobre as condições desumanas da vida moderna, nos alertando para o perigo que a civilização causa à humanidade. 
As imagens são cuidadosamente capturadas sob ângulos e enquadramentos surpreendentes. As inovações realizadas por Reggio servem até hoje de inspiração para muitos que se aventuram no campo das imagens. O documentário foi capaz de construir uma beleza visual quase indescritível, sedutora. Mesmo, e principalmente, pela a ausência de diálogo, o filme é hipnotizador e, talvez por isso, extremamente perturbador do início ao fim.
            Ao refletir sobre o sentido do filme, o espectador pode se questionar se as ações cotidianas do homem moderno, aparentemente repletas de significado, como o lucro e a acumulação de capital, têm de fato algum sentido, uma vez que causam o desequilíbrio, o caos, sob o pretexto do avanço e da ordem.